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As Dores do Amadurecimento: Por quê a plenitude de Cristo requer crescimento?

O amadurecimento é um processo inevitável, mas raramente indolor. Na esfera da fé, essa jornada é ainda mais complexa, exigindo uma transição de uma espiritualidade infantil e dependente para uma maturidade robusta e responsável. 

 

Efésios 4.13 revela o alvo dessa jornada: chegar à “estatura da plenitude de Cristo”. 

 

Gálatas 4 aprofunda a ideia ao afirmar que o filho, mesmo sendo herdeiro de tudo, não recebe a herança enquanto permanece imaturo, vivendo como um escravo.

 

Pai e filho em uma conversa séria

O livro de Drumond Lacerda, tratando deste tema, utiliza uma metáfora poderosa: existem bênçãos, responsabilidades e um nível de intimidade com o Deus que estão, propositalmente, “fora do alcance das crianças” espirituais. O Pai Eterno aguarda a nossa maturidade para nos entregar o que é bom, mas que exige preparo para ser administrado. A dor do amadurecimento, portanto, reside no esforço de sair da infância espiritual.

 

A seguir, exploramos cinco dores centrais que marcam essa transição.

 

1. O desafio de abandonar a Espiritualidade Infantil

A primeira e talvez maior dor é a da renúncia à comodidade da infância. A espiritualidade infantil é marcada pela dependência total e pelo imediatismo. O “crente-criança” espera que Deus resolva todos os problemas instantaneamente, sem a necessidade de esforço pessoal, disciplina ou compreensão profunda.

 

A dor surge quando se percebe que a fé madura exige mais do que apenas pedir. Ela exige uma postura ativa, de co-participação com o propósito divino. Não é a falta de oração, mas a falta de maturidade que impede o acesso a certas promessas.


Efésios 4 chama isso de “crescer em tudo naquele que é a cabeça, Cristo”.

O crescimento dói porque exige renúncia ao ego, à vitimização, ao imediatismo e à expectativa de que Deus resolverá tudo sem nossa cooperação.

 

2. A dor da Disciplina

A maturidade é inseparável da disciplina. Para o imaturo, a disciplina é vista como punição ou restrição; para o maduro, é o caminho para a liberdade e a força.

 

A dor da disciplina é a dor da renúncia. É o desconforto de dizer “não” ao desejo imediato em prol de um bem maior e duradouro. É o “teste de maturidade” que se manifesta nas pequenas decisões diárias: na gestão do tempo, na escolha das prioridades e na moderação dos impulsos. A criança espiritual se alimenta apenas do que é doce; o adulto aprende a saborear o alimento sólido, mesmo que amargo, da Palavra e da vida.

 

3. O Peso da responsabilidade

Um dos pontos cruciais do amadurecimento é a mudança de mentalidade de consumidor para herdeiro. O consumidor busca apenas o que pode receber; o herdeiro entende que, com a herança, vêm as responsabilidades e o legado a ser preservado.

 

A dor, neste caso, é o peso da responsabilidade. O crente maduro não está apenas preocupado com a sua própria salvação ou bênção, mas com o Reino de Deus e o bem-estar do próximo. O amadurecimento transforma a fé de um refúgio pessoal para uma missão coletiva. É a dor de carregar o fardo, de servir sem esperar reconhecimento e de entender que a herança espiritual é conquistada através da fidelidade e do serviço.

 

4. A luta contra o imediatismo e a Espera Madura

 

A cultura da gratificação instantânea é o maior inimigo da maturidade. A criança chora por aquilo que quer no momento; o adulto aprende a esperar, a plantar e a colher no tempo certo. A dor da espera é a dor da paciência testada.

 

O amadurecimento exige que se abandone a mentalidade de que “tudo tem que ser agora”. A maturidade, indiretamente confronta a impaciência que leva muitos a desistirem no meio do caminho. A espera madura não é passiva; é uma espera ativa, de quem trabalha e confia, sabendo que o tempo de Deus é diferente do nosso. É a dor de ver o processo lento, mas crer no resultado certo.

 

5. A dor da Coerência: O confronto entre Doutrina e Vida

A maturidade não é apenas crença correta, é vida coerente com a crença. E essa coerência é uma das dores mais profundas. Por quê? Porque expõe hipocrisias, confronta vícios ocultos, desfaz máscaras, obriga a alinhar teoria e prática.


É necessário viver o que se prega, agir conforme se crê e honrar o Cristo que se anuncia.  É mais fácil ter boa teologia do que bom caráter. É mais fácil ter discurso santo do que atitudes santas. É mais fácil parecer maduro do que ser maduro. A dor da coerência é a dor do espelho. Mas é justamente ela que produz líderes confiáveis, cristãos estáveis e testemunhos que realmente glorificam a Deus.


Conclusão

Deus só entrega o que pode ser sustentado. Ele ama demais seus filhos para lhes dar heranças que quebrariam suas mãos. Por isso o amadurecimento dói, mas não machuca, ele forma. Não destrói, mas edifica.Não exclui e sim prepara.


A recompensa da maturidade é o acesso à plenitude de Cristo, à vida que Deus sempre quis nos dar, mas que permanece inacessível para quem insiste em não crescer. A dor do amadurecimento é temporária, porém a glória da maturidade é eterna.

 

 

Referência

[1] Lacerda, Drummond. (2018). Fora do Alcance das Crianças. Editora Orvalho.

 

 

 

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